Débito técnico já foi um termo útil. Agora, virou um conceito vago.
Se tem algo de errado no desenvolvimento vira “débito técnico”, como se fosse um problema “gourmetizado”.
O problema não é o débito, é a narrativa.
O termo sugere que estamos gastando algo e que, em algum momento, vamos pagar. Mas sem a devida priorização, o time nunca consegue “pagar” esse débito. O mais comum é que o código continue piorando.
E tem mais: débito técnico passa a impressão de que o problema é só técnico. Muitas vezes o buraco é maior. O código ruim pode ser um sintoma de cultura.
A verdadeira questão é que “débito técnico” virou um termo genérico pra todo problema “não priorizado”.
Se um time escolhe um atalho consciente para validação ou resolução de algo urgente, faz sentido chamar isso de débito técnico. Quando o código está ruim porque ninguém cuida, isso não é débito, é abandono.
Sem entender o que chamamos de débito técnico, como vamos resolver?
Um débito de verdade precisa ter um plano de pagamento. Precisamos ter uma agenda, algum controle e muita visibilidade.
Em vez de dizer que o projeto tem muito débito técnico, o que realmente deveria ser dito é que o código não escala, existe mais complexidade do que o necessário ou que os bugs são frequentes porque os testes não estão bons.
Nomear o problema corretamente ajuda a priorizar e evita que o débito vire uma bola de neve.
Devemos fugir de usar “débito técnico” como desculpa genérica. Se o código está ruim, precisamos entender o motivo.
Se for um atalho estratégico, o time precisa encarar como uma situação temporária e criar um plano para resolver.
Se for negligência, o time precisa assumir e corrigir. Débito técnico não pode ser desculpa pra falta de planejamento ou abandono de código.
Ou controlamos o débito, ou o débito nos controla.


